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Terça-feira, 23 de julho de 2013

Desaquecimento reduz o lucro de grandes empresas

Por Willian Volpato | De São Paulo

O desaquecimento da economia brasileira afetou diretamente o lucro das mil maiores companhias que compõem o ranking do anuário Valor 1000. Elas registraram em 2012 uma lucratividade 32,4% menor. Em valor absoluto, o lucro líquido despencou R$ 54 bilhões, de R$ 171 bilhões para R$ 117 bilhões. É o segundo ano consecutivo de queda. Em 2011, as empresas já tinham perdido outros R$ 14 bilhões de lucro, comparado a 2010.

A acentuada retração dos ganhos ocorreu mesmo com o crescimento, pelo terceiro ano consecutivo, da receita líquida do grupo para um valor consolidado de R$ 2,54 trilhões em 2012, alta de 14,3%, em termos nominais. Esse crescimento contrasta com a evolução decepcionante do Produto Interno Bruto (PIB), de apenas 0,9% no ano passado. Mas a acomodação do mercado interno se refletiu na intensidade do ritmo de expansão das vendas: o índice foi maior nos anos anteriores, de 18,8% em 2010 e de 15,5% em 2011.

Mesmo assim, a receita líquida das mil maiores empresas do país representa participação recorde de 57,9% no Produto Interno Bruto (PIB) do país, analisado o período dos últimos doze anos. É uma recuperação expressiva se comparada com o ano de 2009, quando a participação das mil maiores foi de 46,2%.

A alta da receita líquida foi apurada em 25 dos 26 setores analisados pela publicação. Os destaques ficam por conta dos segmentos de telecomunicações, 33,6% maior em relação ao ano anterior, de alimentos (+26,4%) e de açúcar e álcool (20%). Devido ao cenário de retração do mercado internacional, com estoques elevados e desaceleração da atividade econômica, os setores de metalurgia e siderurgia e de veículos e peças registraram menor expansão de receita líquida: 5,4% e 2,1% respectivamente. O setor de mineração teve queda nominal na receita líquida, comparativamente a 2011, de 6,9%.

Além de fatores como câmbio depreciado e mão de obra mais cara, dificuldades específicas de cada setor ajudam a explicar a queda da lucratividade na média das empresas no ano passado. Dos 26 setores analisados pelo ranking Valor 1000, 14 registraram crescimento no lucro líquido e outros 12 setores observaram redução. Entre os destaques negativos está o segmento de metalurgia e siderurgia, cujo lucro líquido despencou 94,5% em 2012 e contribuiu para arrastar o índice geral para baixo.

Outros setores com desempenho negativo foram o de açúcar e álcool (redução de 77,1% no lucro líquido), por conta majoritariamente de endividamentos e captações para fusões e aquisições, e o de química e petroquímica (redução de 74,4%), uma queda que está ligada à desvalorização do real diante do dólar, ocorrida em 2012, que elevou o nível endividamento das companhias, fazendo com que as despesas financeiras disparassem.

Na outra ponta, os segmentos que contribuíram para que a média de lucratividade das empresas não fosse ainda menor foram Tecnologia da Informação (alta de 94,5%, de R$ 439,8 milhões para R$ 855,5 milhões), Alimentos (acréscimo de 70,5%, de R$ 2,18 bilhões para R$ 3,72 bilhões) e Água e Saneamento, (evolução de 61,9%, passando de um lucro de R$ 2,33 bilhões, em 2011, para R$ 3,78 bilhões, no ano passado).

Em um ano marcado pela desaceleração da atividade econômica, com crescente endividamento das empresas, a estratégia de crescer utilizando os próprios recursos ficou em segundo plano. Um dos indicadores do Valor 1000 reflete com precisão esse cenário em 2012. O conceito de crescimento sustentável é medido dividindo-se a variação do crescimento da receita líquida pelo crescimento do patrimônio líquido ajustado. Quanto mais próximo de um, o resultado é melhor e, na prática, significa que a empresa tem boa capacidade de crescer aproveitando os recursos próprios. O ponto de corte apurado no conjunto dos setores no ano passado foi de 1,0642 - pior, portanto, se comparado ao índice de 1,0160 verificado em 2011.

O crescimento sustentável é um dos sete critérios utilizados para elencar as dez melhores de cada setor e escolher sua campeã. Receita líquida, geração de valor, rentabilidade, margem da atividade, liquidez corrente e giro do ativo são os outros critérios de avaliação. Questões como governança corporativa, envolvimento social e respeito ao consumidor e ao meio ambiente são pontos levados em consideração para a escolha da campeã das campeãs, a Empresa de Valor.

Nível de endividamento está sob controle

Por William Eid Junior* | De São Paulo

As empresas brasileiras têm gerido de forma bastante adequada seu endividamento, mesmo em período de crise. Seja através da redução de custos, ou do aumento de investimentos. Com custos financeiros menores, elas estão usufruindo das vantagens da alavancagem financeira, o que nos permite desenhar perspectivas alentadoras para quando a crise reduzir seus efeitos. Essa constatação decorre da análise de indicadores utilizados pelo anuário Valor 1000 para medir o desempenho das empresas participantes. Para tanto foram apurados dados publicados nos últimos seis anos, de 2007 a 2012, período em que o mundo esteve mergulhado em crise.

Uma das formas de avaliar a saúde de uma empresa é analisar seu endividamento, principalmente a capacidade de honrar compromissos de longo prazo. É importante discutir o impacto do endividamento, começando por uma análise do termo alavancagem. Termo usado com os mais diferentes sentidos, ele tem um significado muito preciso quando se trata de alavancagem financeira. Estar alavancado não é sinônimo apenas de estar endividado. Alavancagem é o uso positivo do endividamento. Seu significado é claro: alavancamos o retorno do acionista através do uso de financiamentos.


A análise pode levar à conclusão que o endividamento das empresas deve ser levado a níveis elevados, o que não é verdade. Há limites para este endividamento, relacionados principalmente à capacidade de pagamento e à relação entre endividamento, ou capital de terceiros, e o investimento dos sócios ou capital próprio.

O índice de alavancagem financeira, medido pela relação entre dívida financeira bruta e patrimônio líquido das empresas, é crescente em praticamente todo o período analisado. Ele parte de 43,3% em 2007, isto é, para cada real de patrimônio líquido as empresas brasileiras apresentavam pouco mais de quarenta centavos de dívida bruta, chegando em 2012 a 67,5%. Um crescimento de mais de 50%. Não é um índice elevado. Primeiro porque houve também um crescimento muito grande do patrimônio líquido das empresas, que mais que dobrou, indicando investimentos significativos.

Ao mesmo tempo é interessante comparar o índice das empresas brasileiras com o de outros paises, já que índices financeiros são sempre indicadores relativos. Nos Estados Unidos esse índice é bem mais elevado, com média próxima a 200%, isto é, as empresas têm, para cada dólar em patrimônio líquido, dois dólares em dívida onerosa. Pode-se argumentar que lá o mercado de capitais é mais desenvolvido, o que permite níveis de endividamento superior. Mas essa diferença indica que as empresas brasileiras usam pouco sua capacidade de endividamento, e que usando-a apropriadamente, isto é, se alavancando, elas podem crescer muito mais e de forma saudável.

Na análise do custo do endividamento, medido pela relação entre despesas financeiras e o volume de dívidas onerosas, a tendência foi de queda acentuada nos últimos anos. Depois de atingir um pico de 20% em 2008, ele vem se reduzindo de forma muito clara, chegando a 13% em 2012. O custo das dívidas das empresas brasileiras representa hoje pouco mais que 60% do que há alguns anos. O que indica que as empresas estão gerindo de forma mais eficiente seu endividamento e ampliando seus investimentos com menor custo.

A questão do endividamento também pode ser medida em comparação ao desempenho da empresa. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) permite comparar empresas de diferentes setores e em diferentes situações financeiras. Este índice, dividido pelas despesas financeiras resulta no índice de cobertura de juros, um dos indicadores utilizado no Valor 1000.

Aqui talvez seja onde a crise se fez sentir mais. De um índice igual a 3 em 2007 e 2010, temos em 2012, em média, um índice de cobertura de juros praticamente igual a 2, isto é, para cada real de despesas financeiras pagas em 2012, as empresas geraram 2 reais de Ebitda. A queda é nítida entre 2010 e 2012, mas mostra folga para as empresas, já que com o real restante elas têm como desembolso de caixa apenas os impostos.

*O texto acima é um resumo do artigo do professor William Eid Junior, da Fundação Getulio Vargas, que será publicado na edição do Valor 1000, com circulação no dia 20 de agosto.

 

Fonte: Valor Econômico