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Sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Cai percentual de empresas que inovam

De 2009 a 2011, índice foi de 35,6%, ante 38,1% entre 2006 e 2008; foi a primeira queda em cinco levantamentos Considerados apenas os processos e produtos totalmente novos, fatia de companhias que inovaram cai para 2,1% MARIANA SALLOWICZ DO RIO Com a economia em marcha lenta e a concorrência de importados, caiu o percentual de empresas do setor industrial que realizaram inovações entre 2009 e 2011. Foram 35,6% do total. De 2006 a 2008, o índice era de 38,1%, mostra a Pintec (Pesquisa de Inovação), divulgada ontem pelo IBGE. Em cinco edições da pesquisa, foi a primeira vez que a taxa recuou. Pelo critério do estudo, é inovação qualquer produto ou processo produtivo novo ou substancialmente aprimorado, mesmo que seja cópia de algo que já exista. Para o professor Ari Francisco de Araújo Jr., mestre em economia do Ibmec/MG, as empresas no país não precisam inovar porque o mercado brasileiro "é muito fechado à competitividade estrangeira". "Elas têm a proteção das barreiras alfandegárias." Entre os principais empecilhos apontados pelas empresas na pesquisa, estão o alto custo para se inovar no Brasil, riscos econômicos excessivos e a falta de mão de obra qualificada, que travam o lançamento de inovações, principalmente de produtos. Pela primeira vez em 2011, a falta de mão de obra qualificada aparece entre os dois maiores obstáculos à inovação na indústria, com 72,5% das empresas industriais atribuindo importância alta ou média a este problema, superado apenas pelos custos elevados (81,7%). Esse problema foi o sexto mais relevante para a indústria no período 2003-2005, passando a ocupar a terceira posição em 2006-2008. Entre as empresas que não inovaram, o principal motivo apontado foi as condições do mercado. Na indústria, essa foi a resposta de 66,1% das empresas, enquanto em eletricidade e gás o percentual foi de 72,6% e de 44,4% em serviços selecionados. Foram avaliadas 128.699 empresas do país com dez ou mais pessoas ocupadas. MENOS ORIGINAIS A taxa de inovação cai para 2,1% se forem considerados apenas processos novos para o setor no Brasil. "O triênio ocorreu na esteira da crise mundial, que começou no último trimestre de 2008 e afetou as expectativas", diz Alessandro Pinheiro, gerente da pesquisa. Segundo o especialista, em meio a esse cenário, as firmas tendem a adotar um comportamento defensivo, como forma de evitar o risco. "Isso prejudica principalmente a inovação de produto. Elas acabam concentrando as inovações nos processos, com o objetivo de reduzir custos e aumentar a produtividade, mas postergam os planos de implementação de novos produtos", afirma o gerente do IBGE. Além da crise internacional, outro fenômeno teve impacto entre 2009 e 2011: a apreciação cambial, que levou à alta das importações. Em 2011, a taxa média de câmbio comercial para venda de dólar era de R$ 1,675. Em 2006, estava em R$ 2,176. "A valorização da moeda nacional induz ao aumento das importações e prejudica as empresas exportadoras. Há ainda o efeito China', várias empresas reclamaram da concorrência com os produtos do país, especialmente em setores como o têxtil, siderurgia e papel", afirma. Por outro lado, a apreciação cambial pode motivar empresas a importar máquinas e equipamentos. ANÁLISE Políticas públicas vão na direção certa, mas faltam foco e recursos Este é o paradoxo: o esforço tecnológico aumenta em segmentos importantes da indústria, mas a participação deles na economia diminui FERNANDA DE NEGRI LUIZ RICARDO CAVALCANTE ESPECIAL PARA A FOLHA Os resultados da pesquisa de inovação (Pintec) divulgados ontem pelo IBGE não mostram nenhum avanço excepcional. A taxa de inovação na indústria caiu de 38,1% para 35,6% entre 2008 e 2011, enquanto o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) registrado na Pintec passou de 0,58% para 0,59% do PIB ou de 0,93% para 0,96% do faturamento das empresas. Esse resultado é fruto tanto de uma conjuntura econômica desfavorável quanto da dificuldade de o Estado brasileiro desenhar políticas públicas mais efetivas para a inovação. Nesse período, o mundo atravessou uma crise que, obviamente, teve impactos nos investimentos em inovação. Em virtude disso, em países como os EUA e a Espanha, os investimentos empresariais em P&D em relação ao PIB caíram. No primeiro caso, essa relação passou de 1,97% para 1,83% e, no segundo, de 0,74% para 0,71%. É claro que existem exceções e que seria muito melhor se estivéssemos entre elas. A China, mesmo com a crise, aumentou seus investimentos empresariais em P&D de 1,08% para 1,39% do PIB. Além da crise, os preços internacionais de commodities ainda em alta e uma conjuntura de perda de dinamismo da indústria (setor responsável por mais de 70% dos investimentos empresariais em P&D no país) contribuem para aprofundar a especialização produtiva do país em setores tradicionais e de baixa intensidade tecnológica. Após a crise de 2008, com a relativa estagnação da produção e da produtividade industrial, esse movimento se aprofunda. Por outro lado, ao abrir os dados da Pintec por setor, observa-se que a relação P&D/faturamento da indústria de transformação passou de 0,75% para 0,83% e que esse crescimento se deu principalmente nos setores de maior intensidade tecnológica. Este é o paradoxo: o esforço tecnológico aumenta em segmentos importantes da indústria, mas a participação desses segmentos na economia diminui, o que explica a estagnação da relação entre P&D e PIB. As políticas públicas, por sua vez, não foram capazes de reverter essa tendência. Na última década, o país consolidou um cardápio relativamente completo de políticas de inovação: incentivos fiscais, subvenção, crédito subsidiado, entre outros. Apesar desse conjunto de políticas apontar na direção correta, faltam-lhe elementos fundamentais, especialmente foco, priorização e volume adequado de recursos. Iniciativas como o programa Inova Empresa tentam superar as limitações, mas seus resultados só serão observados no futuro. Entretanto, de nada adiantará uma política tecnológica atuando para ampliar a intensidade de P&D na economia se outras políticas apontarem na direção oposta. O resultado será, na melhor das hipóteses, um paradoxo como o que foi observado na última Pintec. FERNANDA DE NEGRI é diretora da Diretoria de Estudos Setoriais do Ipea LUIZ RICARDO CAVALCANTE é diretor-adjunto da Diretoria de Estudos Setoriais do Ipea Fonte: Folha de S.Paulo