Quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Brasil entre os lanternas
País crescerá 2,4% neste ano e 2,6% em 2014. Projeções estão entre as piores da América Latina, à frente apenas de El Salvador e Venezuela
» SIMONE KAFRUNI
O Brasil terá um dos piores índices de crescimento entre os países da América Latina este ano e no próximo. Em 2013, o México engrossa a lista dos lanternas, mas sobe várias posições na estimativa para 2014. O pífio desempenho brasileiro fica à frente apenas de El Salvador e Venezuela. As projeções, divulgadas ontem pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) no seu relatório anual, apontam que a economia da região terá expansão de 2,6% este ano e de 3,2% em 2014, enquanto, no país, o avanço será de 2,4% e 2,6%, respectivamente.
Para a Cepal, o menor dinamismo da demanda externa, a maior volatilidade financeira internacional e a queda no consumo foram os fatores que levaram ao desempenho mais modesto da atividade em 2013 na América Latina e no Caribe. Para o próximo ano, a entidade espera que um cenário global mais favorável contribua para aumentar a demanda e, portanto, as exportações da região.
Na avaliação do diretor da entidade no país, Carlos Mussi, a economia nacional é mais complexa e por isso está entre as piores taxas de expansão. “O mercado brasileiro é gigantesco comparado aos outros. O Brasil e o México, que também é grande, são economias mais integradas ao cenário global, portanto, se ressentiram com o quadro internacional de demanda desaquecida e sofreram um impacto negativo maior”, explicou.
Ineficiência
Para o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília Creomar de Souza, a economia brasileira é mais diversificada do que a de outros países e o governo tende a priorizar alguns setores em detrimento de outros. “Além de existir ineficiência de um lado, há a dificuldade de fazer as escolhas certas. Tudo isso ainda esbarra na burocracia, que cria obstáculos aos investimentos”, avaliou.
O modelo de crescimento brasileiro, baseado na expansão do crédito, no endividamento das famílias e no aumento do consumo se esgotou, na análise do professor da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite. “O governo insistiu demais nisso. Agora, a única saída para crescer, pelo menos na mesma média da América Latina, é aumentar a taxa de investimento. Contudo, o programa de concessões, que poderia ter colaborado com isso, está 10 anos atrasado”, afirmou.
O balanço preliminar da Cepal também revelou que o Brasil ficou na contramão da região ao ser o único a implementar um aperto monetário este ano. Diante de um panorama de menor inflação, de desaceleração do crescimento econômico e de instabilidade financeira, numerosos países aplicaram políticas monetárias para sustentar a demanda interna. “Alguns reduziram seus juros de referência — com exceção do Brasil, que aumentou suas taxas — e outros promoveram o aumento do dinheiro total em circulação”, disse Alicia Bárcena, secretária executiva da entidade.
O quadro da economia mundial em 2014 acarreta para a América Latina e para o Caribe oportunidades e ameaças, de acordo com a Alicia. Entre as oportunidades, há o aumento no comércio internacional e a possibilidade de aproveitar as desvalorizações cambiais que estão ocorrendo para assegurar mudanças sustentadas dos preços relativos.
Entre as ameaças, completou ela, há a persistente volatilidade na economia global e um maior custo do financiamento externo, assim como uma menor contribuição do consumo ao crescimento do PIB e uma deterioração da conta-corrente regional.