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Segunda-feira, 9 de junho de 2014

Desemprego, estatísticas e manipulações

Revista IstoÉ 06/06/2014 Ricardo Amorim Facebook, Twitter e outras redes sociais trazem coisas boas e ruins. Uma das mais convenientes é saber os assuntos que mais interessam. Recentemente, poucos temas geraram tanta inquietação ou tanta incompreensão quanto os números sobre emprego. Quase todos sabem que a taxa de desemprego despencou e está entre as mais baixas do mundo e da História, mas você sabia que de cada 100 brasileiros em idade de trabalho, só 53 trabalham? Isto mesmo. Pelos dados oficiais do IBGE, a cada 100 brasileiros em idade de trabalho, 53 trabalham, 3 procuram emprego e não encontram, 44 não trabalham e nem procuram emprego. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), 5% estão desempregados nas 12 maiores regiões metropolitanas do país. Só é considerado desempregado quem procura emprego e não encontra (3%) sobre um total dos que procuram emprego (56%). Quem não procura (44%), tecnicamente não está desempregado. Esta não é uma manipulação estatística, pois este conceito vale no mundo todo. Porém, se a estatística não é manipulada, sua interpretação é. Baseado na baixa taxa de desemprego, o governo faz crer que quase todos os brasileiros têm emprego. Na realidade, quase metade (47%) não tem e muitos estão subempregados: sem carteira assinada ou trabalhando menos do que gostariam. Basta uma hora semanal de trabalho assalariado para ser considerado empregado. Excluindo-se empregados e desempregados, sobram os que só estudam, os aposentados, os pensionistas e os que não querem trabalhar, totalizando 44% da População em Idade Ativa (PIA). A PIA considera todos acima de 10 anos. Quem tem menos de 18 anos não deveria trabalhar, mas incluí-los, reduz a taxa de desemprego. Os poucos que trabalham aumentam o total de empregados, mas a quase totalidade dos que não trabalham não procura emprego. Por isso, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, também do IBGE, que mede o desemprego em 3,5 mil municípios entre os maiores de 15 anos, aponta uma taxa de 7%, contra 5% da PME. Considerando apenas quem tem de 18 a 65 anos, a taxa de desemprego seria ainda mais alta. Mesmo assim, a porcentagem dos que trabalham no Brasil (53%) é menor do que na maioria dos países da Europa, onde as taxas de desemprego chegam a 5 vezes mais do que aqui. Pior, hoje o número de empregos tem caído. Nas maiores regiões metropolitanas, há 142 mil empregos a menos que um ano atrás. Por que o desemprego continua caindo, então? Porque mais gente desistiu de procurar emprego e saiu das estatísticas, o que faz cair o número de desempregados. Infelizmente, quem determina a geração de riqueza em um país é o total de pessoas trabalhando, não a taxa de desemprego. Com menos empregos, o crescimento econômico também tem sido pífio. Milhões de pessoas deixaram de buscar empregos nos últimos 10 anos por quatro razões. Temos, hoje, dois milhões de estudantes universitários a mais, o que é ótimo. Uma parte deles não trabalha nem busca emprego. As outras três razões são negativas. A população brasileira está envelhecendo, reduzindo a parcela dos que trabalham e aumentando a dos aposentados. Há ainda os efeitos das políticas do governo. O Bolsa-Família melhora as condições de sobrevivência de milhões de famílias, mas em locais onde os salários são pouco superiores ao benefício, desestimula a busca por emprego. Desde 2004, o número de beneficiários subiu de 6,6 milhões para 14,1 milhões. Por fim, há a expansão do prazo e valor do seguro-desemprego. Nos últimos 10 anos, o desemprego caiu de 13% para 5%, mas os gastos com abono e seguro desemprego subiram de R$13 bilhões para mais de R$45 bilhões. Quem recebe seguro desemprego e não busca emprego não é considerado desempregado na estatística. Com a ampliação do benefício, mais gente entrou neste grupo. De um ano para cá, o mercado de trabalho piorou. Há menos empregos e quem procura demora mais para encontrar. Entre os novos empregados, a participação dos que encontraram emprego em menos de 6 meses caiu 8%; já a dos que levaram de 6 meses a um ano subiu 19% e a dos que levaram mais de um ano subiu 36%. Dificuldade em achar emprego leva alguns a deixarem de procurar, reduzindo a taxa desemprego. É o que tem acontecido. Resumindo, criar condições para que o país volte a criar empregos e estimular os brasileiros a quererem trabalhar serão dois dos maiores desafios nos próximos anos. Ricardo Amorim Economista, apresentador do programa Manhattan Connection da Globonews e presidente da Ricam Consultoria.