Segunda-feira, 9 de junho de 2014
DILMA E AS UVAS
FERNANDO GABEIRA
O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/06/14
Num de seus recentes discursos, Dilma Rousseff afirmou que as obras para a Copa terão padrão brasileiro, não padrão Fifa. Com essa frase, queria dizer também que nossos padrões são mais democráticos, naturalmente referindo-se aos altos preços dos ingressos. Dilma fez tal declaração no fim de um período em que a Copa do Mundo foi perdida fora do campo e todos esperamos, com ansiedade singular, que ela seja ganha dentro de campo.
Essa frase de Dilma marca uma inflexão do governo nas suas relações com a Fifa, cujos dirigentes afirmam que o Brasil propunha a Copa em 17, e não 12 cidades. Foi preciso conter a megalomania de Lula e a própria Fifa foi otimista quando considerou 12 um bom número, levando em conta o tamanho do Pais, não suas reais possibilidades.
O Estádio Mané Garrincha, beirando R$ 1,5 milhão, custou mais caro que um estádio do Qatar - país com a maior renda per capita do mundo - para 2022. Se os cálculos forem comprovados, o padrão brasileiro foi mais caro, no Mané Garrincha do que o sonhado padrão Fifa. O estádio de Brasília é um monumento. Não sabemos ainda se é um monumento à incompetência ou à roubalheira embora, no padrão brasileiro, os dois joguem no mesmo time, bem perto do gol.
Três estádios foram plantados em cidades cujo futebol não atrai multidões. O velho estádio de Natal só conseguiu lotação plena quando o Papa visitou a cidade. Para o novo estádio, teremos que combinar com o Papa Francisco algumas visitas regulares, algo difícil porque o Papa não faz visitas apenas para cumprir tabela.
Em Cuiabá presenciamos um fato inédito na história: no dia da visita de inspeção da Fifa, o governador e o presidente da Assembleia estavam presos. É a Copa das Copas, ou o mico dos micos, como quiserem.
Em Manaus, na imensidão de um vazio, uma arena amazônica que me deixa perplexo, sobretudo quando lembro o que vi na Vila de Boim, a seis horas de barco de Santarém: o esforço das comunidades para jogarem a sua própria Copa, numa região de floresta para a qual não existe política de esporte.
Lula quis dar salto maior que as pernas e agora que o fracasso se revela, resta apenas ironizar o padrão Fifa que comprometeu-se adotar.
A esquerda não tem o monopólio da duplicidade e da dissimulação. Mas num partido como o PT e, sobretudo, num governo ditatorial qual o cubano, são os dois elementos vitais para sobreviver e crescer. Em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura fala de uma família cubana, possivelmente a do próprio escritor, que ensinou aos filhos exatamente o oposto dessa regra da sobrevivência: falar a verdade, ser fiel a si próprio.
O discurso do governo brasileiro em relação à Copa é de um zigue-zague acrobático, uma tentativa desesperada ao abordar os fatos e tardiamente cair na realidade. Não foi uma ideia feliz trazer a Copa para o Brasil e assumir os compromissos que assumiu com a Fifa.
Isso não significa que a Copa não deva ocorrer, muito menos que deixaremos de torcer pela vitória dentro de campo. Significa, apenas, que a linguagem cínica do governo é fonte permanente de degradação da complexa vida política. Reflete uma lei interna, segundo a qual não é preciso dizer o que pensa, regra válida para todos os que aderem. Basta que façam o jogo, dancem de acordo com a música.
Até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática, é o enigma que envolve o futuro do Brasil. Controlar o aparato estatal, o Parlamento e até o Supremo Tribunal ainda é um cobertor curto. Restam a sociedade, a imprensa, a internet.
Os militares compreenderam que não tinham resposta para o futuro e organizaram a retirada, para não baterem em fuga desordenada, arriscando a instituição. O PT não acumulou forças para encarar a verdade, arriscar o poder e preservar-se para o futuro.
O discurso de Dilma não é voltado a esse futuro. Apenas adverte que a vitória da oposição significará um ajuste que vai reduzir salários, aumentar o desemprego e cortar verbas sociais. Embora não reconheça, ela deve saber que é necessário um ajuste, que pode ser moderado, no sentido que lhe dá Amartya Sen. Quer dizer, não precisa reduzir salários nem cortar verbas sociais. Um ajuste desse tipo seria voltado para os gastos irracionais do governo. Mas bateria de frente com o mundo político-burocrático, com toda essa gente agarrada a cargos, verbas, negociatas. Às vezes, quando falamos em defender o salário do povo, estamos defendendo os nossos próprios salários. E reaparecem aí a duplicidade e a dissimulação.
Dotar o Brasil de um governo inteligente, aberto e conectado, transformar um sistema político que se tornou uma gigantesca sanguessuga não figura no horizonte. O único caminho é usar os interesses populares como escudo para os próprios interesses e agarrar-se ao poder.
Na classificação dos presidentes de toda a República brasileira, no quesito crescimento, Dilma está em penúltimo, Fernando Collor em antepenúltimo lugar, atrás apenas de Floriano Peixoto, portanto, entre os quatro de baixo que vão para a Segundona. Ao afirmar que as dificuldades econômicas foram conjunturais, ela pede uma segunda chance. Mas pede como se estivesse no grupo de cima, preparando-se para a Libertadores.
Como dizia Cazuza, as palavras não correspondem aos fatos, a piscina está cheia de ratos, e limpar a piscina político-administrativa dos seus ratos é uma tarefa gigantesca. O caminho mais fácil é controlar o Estado, o Parlamento, o Supremo, mobilizar uma artilharia eletrônica.
Que venham todos, porque, independentemente de resultados eleitorais, há um imenso número de brasileiros sabendo o que há por trás dessa duplicidade e dissimulação. Gente que gostaria de falar sério sobre nossos problemas e não perder a energia desmontando as bravatas de Lula, como essa da Copa. Perdemos tempo, dinheiro, operários, moradias, irresponsabilidade que nem a vitória no campo conseguirá apagar.