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Quarta-feira, 16 de maio de 2012
Oferta de crédito cria atrito entre governo e bancos
O crédito é o mais novo ponto de atrito entre o governo e o setor financeiro. O governo acusa os bancos de terem reduzido a oferta de recursos e estarem cobrando caro pelo dinheiro, o que retarda a expansão da economia. Já os bancos alegam que o aumento da inadimplência recomenda cautela e que os próprios clientes estão retraídos. A temperatura subiu na semana passada quando, ao analisar o impacto da redução da taxa básica de juros na oferta de crédito, relatório da Federação das Associações de Bancos (Febraban) citou o antigo ditado que diz que "você pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não conseguirá obrigá-lo a beber água".
Ampla reportagem realizada pelo Valor mostra que os dois lados têm razão. A demanda por crédito diminuiu efetivamente depois da vigorosa expansão dos últimos anos. Do outro lado, os bancos reduziram a oferta de recursos, preocupados com o aumento da inadimplência e com a redução da capacidade de endividamento das pessoas.
Em algumas linhas isso é mais evidente, como o financiamento de veículos, que cresceu muito nos últimos anos, chegando a um estoque de R$ 177,4 bilhões em março. Foram maciços os financiamentos entre 2009 e 2010, quando o governo reduziu o IPI dos automóveis para estimular a economia. Os bancos chegaram a dispensar a entrada e a oferecer crédito por até 72 meses. Na volta do IPI ao normal, reduziu-se também a demanda. Quem aproveitou a onda e comprou um carro novo, continua pagando o carnê.
Muitos não estão conseguindo pagar as contas. Cerca da metade do crescimento da inadimplência no mercado de crédito da pessoa física vem das operações de financiamento de veículos. A inadimplência acima de 90 dias no financiamento de veículos está em 5,7%, o maior patamar da série histórica apurada pelo Banco Central (BC).
Em março, a inadimplência entre 15 e 90 dias chegou a 8,5%, a mais elevada para um mês de março desde 2009, pico do impacto da crise internacional no país.
A partir daí, os bancos passaram a ser mais seletivos. Financiamentos sem entrada não existem mais; paga-se, no mínimo, 20% do valor do automóvel para começar a negociar, e o prazo máximo é de 48 meses.
Como cerca de 60% das vendas de automóveis são financiadas, o setor automobilístico está sendo bastante afetado. O estoque de veículos atingiu, em abril, o correspondente a 43 dias de vendas, patamar mais elevado desde novembro de 2008. A produção de veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) caiu 15,5% em comparação com março.
As vendas também recuaram 14,2% no mesmo período. As revendas, bancando a maior parte dos estoques nas lojas, decidiram incentivar as vendas no último fim de semana oferecendo financiamento com juro zero, mas entrada equivalente a metade do preço do automóvel.
O que acontece com o financiamento de veículos se repete no crédito em geral: cresceu muito nos últimos anos e dobrou em relação ao Produto Interno Bruto para perto de 50%, atingindo R$ 2,069 trilhões em março. Em 12 meses, está acumulado em 18% e o próprio BC espera crescimento de 15%, neste ano.
No último mês, o Fundo Monetário Internacional manifestou duas vezes a preocupação com o financiamento imobiliário no Brasil. De fato, essas operações cresceram 40% nos 12 meses encerrados em março, mas o volume equivale a apenas 5,2% do PIB, ou cerca de 10% do estoque total do crédito no país.
Os números são pequenos, se comparados com outros países e mesmo com outros mercados emergentes. Nada indica que o país está perto de uma bolha, como dizem alguns analistas internacionais. Mas é natural que passe a crescer em ritmo menor. Nos últimos cinco anos, o endividamento médio do brasileiro passou de 25% para 41,3% da renda anual. O comprometimento mensal com prestações está estável em 21,1%, de acordo com o BC, mas chega a 40%, segundo alguns economistas, se incluído o crédito parcelado no cartão.
De acordo com a reportagem do Valor, as pessoas da classe C estão gastando mais com telefone, celular, internet, escolas privadas, viagens e serviços em geral, o que reduz a demanda por crédito e a capacidade futura de endividamento.
A pressão do governo pelo aumento da oferta de crédito deve ser, portanto, conduzida com cautela e acompanhada seriamente na atividade econômica.


