Notícias
Como você toma decisões financeiras?
|
No mundo das finanças, o cenário atual é de queda de juros, com poupança rendendo menos e instabilidade dos mercados. Porém, olhando mais de perto, a pergunta é: você já parou para pensar nas decisões econômicas que afetam diretamente o seu cotidiano? É melhor correr o risco de mudar para um investimento que rende mais ou ficar no que já está para não perder dinheiro? E na hora de gastar, o que conta é a máxima "vale mais um gosto do que um dinheiro no bolso" – mas sem pesar consequências futuras? A verdade é que, quando se fala em dinheiro, há muita subjetividade em jogo. Por isso é que na hora de tomar decisões econômicas é preciso ficar atento para evitar possíveis ciladas financeiras, destacou a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira – que trabalha desde 1994 na implantação da Psicologia Econômica no País –, em palestra no Britcham (Centro Brasileiro Britânico) em São Paulo. Antes de decidir, disse Vera, é preciso perceber, avaliar e escolher no presente, pensando em incertezas, riscos, acasos e seus desdobramentos no futuro. "Dinheiro nunca é 'só' dinheiro. Ele tem dimensão simbólica, que provoca grande mobilização de sentimentos." Considerando a manutenção do panorama de queda de juros e do rendimento da poupança, ela observou que o caminho natural é que o investidor seja empurrado para o mercado de capitais para melhorar os rendimentos. "Mas se o juro voltar a subir, ele 'voa' para o investimento a que está acostumado, já que o que move quem investe é a aversão à perda, não ao risco", afirmou. Pensamentos no papel Em relação aos gastos, Vera exemplificou a subjetividade das decisões econômicas citando situações que dependem do contexto, aliadas à "crença na capacidade futura", como acontece quando se aproxima o recebimento do 13º. Em geral, as pessoas fazem planos bem-comportados, pensando em usar o abono para quitar dívidas e pagar contas do início de ano. Mas ocorre exatamente o contrário. "Perto do Natal, porém, elas se empolgam com presentes e férias, fazendo cálculos ilusórios, achando que estão gastando 'só um pouco' do que receberam, e não os 30% que deveriam. É a 'contabilidade mental', onde se fica suscetível a imaginar que as contas fecham." Ter uma aposentadoria sem sobressaltos financeiros é outro caso comum que envolve decisão econômica inadequada – e aí entra novamente a aversão à perda. Muita gente, após os 40 anos, fica "passada", segundo Vera, ao perceber que desembolsaria muito menos se tivesse começado a pagar um plano de previdência privada aos 20. "As pessoas preferem abrir mão de contribuir agora para não 'perder' parte dos ganhos atuais – mesmo correndo o risco de penar na velhice. Ou seja: 'corremos riscos porque não damos conta de que sejam riscos', já disse Daniel Kahnemann (ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2002). Resumindo o raciocínio: somos vulneráveis a estímulos pouco relevantes por aversão à perda", frisou. Razão contra emoção Como exemplo, ela citou o investidor que toma decisões movido pelo impulso, mas depois vai buscar explicação para o que deu errado. Isso porque, segundo ela, cada um de nós é dois, sendo que o "sistema 1" é o míope, automático, dos impulsos, do curto prazo, da ação. Já o "sistema 2" é que leva a ponderar, refletir, do longo prazo, do planejamento. "Para sair da encrenca na hora de tomar decisões, a ideia é puxar pelo sistema 2, pensar, se apropriar das melhores escolhas e aprender com a experiência." De modo geral, mudar o comportamento financeiro das pessoas em larga escala e a custo baixo vai muito além dos programas de educação e conscientização, explicou Vera. Exemplo disso, de acordo com a psicóloga, é o excesso de oferta de crédito destinado à nova classe C, massa que precisa ser educada para não cair no endividamento – e sem ser proibida de comprar, agora que chegou a "sua" vez. Educação para acertar nas contas A professora fez cursos de finanças pessoais, inclusive na BM&FBovespa, e, atrás de mais conhecimento chegou ao Instituto Dsop (Diagnosticar, Sonhar, Orçar, Poupar) de Educação Financeira. "A gente sempre pensa em guardar dinheiro, mas não sabe muito a finalidade." Ela aprendeu que tudo começa do pressuposto de saber o que fazer com o dinheiro, conforme orienta o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos, presidente do Instituto e autor do recém-lançado "Eu mereço ter dinheiro". O ideal, de acordo com ele, é estabelecer três sonhos: um a curto, outro a médio e o terceiro a longo prazo. Passada essa etapa, é possível fazer um diagnóstico para a escolha do investimento. Como exemplos, ele cita a poupança, para quem tem objetivo de resgate em até um ano. De um a dez anos, ideais são os fundos de investimento, os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e títulos no Tesouro Direto. Já a longo prazo, vale investir em previdência privada, onde dá para pesquisar as melhores taxas de carregamento. Começar de forma conservadora é um meio de evitar a famosa aversão à perda, inerente ao ser humano, segundo Domingos. A despeito do cenário de juros baixos e poupança rendendo menos, é preciso saber que dinheiro que se arrisca muito pode perder muito. Hoje, Bianca avalia que o ideal é não ser imediatista e pensar realmente no futuro para viver bem até onde for possível. Mas o lado emocional, os desejos e as vontades pesam. "Boa parte disso depende de persistência, já que há muitas coisas que fazem você sair do caminho, dão vontade de extrapolar", diz Bianca, que tomou tanto gosto pelo assunto que agora participa dos projetos do Dsop em comunidades como assessora pedagógica. Fonte: Diário do Comércio |


