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Turbulências exigem cautela no câmbio e no endividamento
Os mercados de câmbio voltaram a se agitar depois que o presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu a possibilidade de, no horizonte de algumas reuniões, interromper a política de afrouxamento monetário
Os mercados de câmbio voltaram a se agitar depois que o presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu a possibilidade de, no horizonte de algumas reuniões, interromper a política de afrouxamento monetário. Como o fim do programa seria a prova derradeira de que a recuperação americana ganhou força própria, e então a elevação da taxa de juros viria naturalmente em seguida, o dólar se valorizou em relação à maior parte das moedas do mundo. A perspectiva de menor liquidez nos EUA, com juros maiores do que os próximos de zero que prevalecem hoje, também desvalorizou o real. Com avanços e recuos, essa é a tendência de curto prazo que parece prevalecer, cujas consequências complicam o manejo da política monetária doméstica, que voltou a ser contracionista.
A elevação do dólar, com o vislumbre de uma futura retirada de estímulos pelo Fed, afeta o país de várias formas. A mais óbvia delas é pelo aumento dos preços dos produtos importados, que ganharam peso maior na estrutura da economia brasileira que, por outro lado, continua sendo bastante fechada. Assim, desde que contida em termos razoáveis, a desvalorização do real pode afetar pouco os preços domésticos. Mas o impacto dificilmente será irrelevante em um momento em que até algarismos depois da vírgula contam para afastar a inflação de seu insistente namoro com o teto da meta.
O Banco Central tem bom arsenal e longa experiência para lidar com o câmbio. Não deverá lutar contra a tendência de valorização do dólar, que é generalizada, e intervirá para impedir grandes e desordenados saltos nas cotações. Depois, há outros meios de impulsionar a irrigação de dólares. Em um momento de elevação da taxa de juros, o fim do IOF sobre aplicações de investidores externos na renda fixa - que foi um dique poderoso - poderia ser decretado no momento oportuno. E o BC dispõe de US$ 374,4 bilhões em reservas, o suficiente para enfrentar graves turbulências.
Nadar contra a corrente tende agora a ser caro e inútil, depois que o Japão embarcou em um programa radical de relaxamento monetário, com a emissão de US$ 1,4 trilhão em dois anos para compra de títulos do governo. A consequência do programa foi um mergulho do iene japonês ante o dólar que, mesmo com as oscilações recentes, ainda está desvalorizado em mais de 20%. No fim das contas, segundo Charles Dumas, chairman do Lombard Street Research ("Financial Times", 3 de junho), com a queda de euro e dólar ao redor de 10% desde 2009, e o mergulho do iene, é a China que agora estaria com a moeda sobrevalorizada. De alvo de queixas de manipulação da moeda, é a China quem passou a resmungar junto ao Fundo Monetário sobre a política cambial do Japão.
Neste cenário, manter parado um real já sobrevalorizado agravaria as agruras da balança comercial, que encerrou os primeiros cinco meses do ano com um histórico déficit de US$ 5,39 bilhões. Pouco competitivas, as vendas brasileiras sofreriam um baque na Europa (onde já recuam) e fortemente no mercado asiático, com exceção da China.
As oscilações de moedas não foram as únicas consequências da fala de Bernanke. Os mercados de bônus de governo tiveram nos EUA, em maio, o pior desempenho em duas décadas (Gavyn Davies, FT). A perspectiva de fim do relaxamento monetário derrubou os preços dos títulos do Tesouro com rapidez, elevando seus rendimentos. Os T-bonds de 30 anos, que há um mês rendiam 2,96%, estavam ontem a 3,27%. Os de 10 anos subiram no mesmo período de 1,74% para 2,12%. A alta puniu fundos de investimento e forçou a uma reavaliação do portfólio de títulos mais arriscados, como o dos países emergentes. Vedetes dos aplicadores quando o mundo desenvolvido estava na lona, eles estão perdendo o apelo com a reviravolta. O MSCI de mercados emergentes cai há três semanas e o EMBI Global, denominado em dólares, perdeu 2,1%, seu maior recuo desde setembro de 2011.
Títulos do Tesouro americano em alta e de emergentes em baixa significam que as captações externas do Brasil ficarão mais caras e mais difíceis, em um momento em que o déficit em conta corrente está em alta. E, a depender da magnitude da desvalorização do real, o impacto sobre a dívida corporativa externa de cerca de US$ 200 bilhões (curto e longo prazos) poderá ser significativo.
O que a angústia dos mercados está antecipando é o fim do período do dinheiro de graça, dos juros negativos e da liquidez farta. Os sinais disso podem ser prematuros, mas mesmo assim indicam que a volta gradativa aos "tempos normais" não será tranquila.
Fonte: ClippingMP


