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Quinta-feira, 6 de junho de 2013

Dólar sobe apesar de IOF zerado

Com IOF zerado, BC atua, mas dólar sobe

Bruno Villas Bôas, Martha Beck, Gabriela Valente e Eliane Oliveira

 

Um dia após o governo zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para investidores estrangeiros no mercado de renda fixa, nem mesmo uma nova intervenção do Banco Central foi capaz de impedir a valorização do dólar, que fechou em leve alta de 0,09%, cotado a R$ 2,131. Segundo analistas, a taxa foi pressionada por declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e da presidente Dilma Rousseff, e pela tendência de desvalorização de moedas de emergentes no exterior.

Logo após a abertura dos negócios, o dólar chegou a cair 1,94%, cotado a R$ 2,088, com a expectativa favorável do mercado. Em relatório, o Itaú Unibanco estimou que a retirada do IOF vai atrair US$ 2,5 bilhões por mês para aplicações em renda fixa, o que seria "uma diferença significativa" para o câmbio. O Bradesco avaliou que a medida "deve impactar de forma favorável a leitura do mercado, sobretudo investidores estrangeiros, sobre a condução da política econômica no país". Mas o tombo da moeda durou pouco. Em seguida, Mantega negou que a medida tenha foco no curto prazo para frear a alta do dólar e combater a inflação.

- A medida é de longo prazo. Queremos deixar livre para aplicações em renda fixa títulos do governo brasileiro. Na verdade já havia aplicações, mas tínhamos diminuído muito sua rentabilidade com IOF de 6% - disse o ministro, que frisou a preferência dos investidores por papéis de longo prazo, mas negou dificuldades para financiar a dívida.

Impacto sobre as contas externas

Pouco depois, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, afirmou que o governo não avalia a retirada do IOF sobre operações no mercado futuro de câmbio, os chamados derivativos. Em seguida, foi a vez de a presidente Dilma Rousseff dizer que o país segue o "regime de câmbio flexível":

- Não temos medida nenhuma para segurar o dólar. Eu queria informar que este país adota o regime de câmbio flexível - disse a presidente.

Pressionado pela bateria de declarações de membros do governo, por volta das 11h50, o dólar subia 0,99%, cotado a R$ 2,15. Segundo analistas, os comentários precipitaram a intervenção do Banco Central. A autoridade monetária anunciou, ao meio-dia, um leilão de swap cambial tradicional - que equivale a uma venda de dólares no mercado futuro. Foram ofertados 40 mil contratos, o que corresponde a US$ 2 bilhões. Desse total, 27 mil foram vendidos, cerca de US$ 1,35 bilhão. Operadores afirmaram que o BC não vendeu todos porque o mercado pediu um "prêmio" maior do que autoridade monetária estava disposta a oferecer.

Com a intervenção, o dólar comercial chegou a recuar 0,23%, cotado a R$ 2,214. Mas, na parte da tarde, retomou uma leve alta acompanhando os mercados externos, influenciados pelo temor de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduza seu programa de recompra de títulos, os chamados treasuries .

Para Luciano Rostagno, estrategista-sênior do banco alemão WestLB no Brasil, pregão foi marcado por "excesso de comentários de integrantes do governo", o que deixou investidores confusos sobre a tendência da moeda. Mesmo assim, a maioria dos analistas previa ontem que a retirada do IOF vai levar o dólar para R$ 2,05 nas próxima semanas, como Itaú Unibanco, Barclays e NGO Corretora.

Antes da decisão sobre o imposto, o governo analisou com lupa o impacto da medida sobre as contas externas e a balança comercial. O rombo nas transações correntes ficou em US$ 33,2 bilhões no primeiro quadrimestre. Já o comércio exterior brasileiro acumulou saldo negativo de US$ 5,3 bilhões de janeiro a maio, o pior resultado da história da balança comercial. Segundo uma fonte, há uma vertente no governo que defende um patamar de equilíbrio para a moeda americana, suficiente para não pressionar a inflação e nem desestimular os exportadores. Esse técnico do governo explicou que há uma linha tênue entre qual seria a cotação do dólar que não prejudicaria as vendas ao exterior e até onde a equipe econômica pode atuar para aliviar o peso do dólar na inflação.

- Não sabemos em que nível poderíamos chegar, pois encontrar esse meio termo é o grande desafio - disse o técnico, lembrando que, para o governo e o BC a prioridade é o combate à inflação.

Ontem, o mercado de câmbio não foi o único a oscilar de acordo com declarações do governo. O mercado de juros futuros abriu em forte queda. Mas, com o avanço do dólar, os contratos DI terminaram o dia em alta e com volume recorde de negócios. Os de vencimento em janeiro de 2014 subiram de 8,450% para 8,490%. Pressionado por dados ruins do mercado de trabalho americano e pedidos às fábricas nos EUA, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, fechou em queda de 2,25%, aos 52.798 pontos. É o menor patamar desde 25 de julho de 2012.

De outro lado, o país registrou fluxo de dólares positivo de US$ 10,8 bilhões em maio, o melhor desempenho para o mês desde que o BC começou a registrar os dados há 31 anos. O resultado foi inflado pelas captações de grandes empresas no exterior.

Fonte: O Globo